Faturas de cartão de crédito chegando, especiais da Globo acabando, reprises do programa do Jô enchendo o saco. Não há como negar, o ano começou. É hora de botar em prática aqueles planos tão perfeitos em dezembro e que agora você percebe que não vai conseguir cumprir e começa o ritual de procrastinação que termina no fim destes 365 dias com a renovação dos mesmos planos.
O mês de janeiro é um período do ano em que nada acontece, uma espécie de período de gestação do novo ciclo anual, onde ainda erramos a data quando a anotamos, falamos do ano retrasado como se fosse ano passado e somos obrigados a assistir às reportagens mais inúteis na televisão porque nessa época do ano nada acontece, por isso qualquer besteira é motivo de matéria jornalística, até desvio de dinheiro e corrupção, pode?
Tanto que quando assistimos a retrospectiva do ano, os acontecidos de janeiro sempre estão localizados na parte mental referente ao ano anterior.
A impaciência é grande com a preguiça que prevalece essa época do ano
O ano no Brasil é aberto oficialmente após o carnaval e as brigas entre as madrinhas da bateria de várias escolas de samba junto às fotos de velhas cocotinhas desfilando começam a moldar o ano que se inicia.
Delícia de início de ano
Mas o mês de janeiro não é tão inútil assim, é nessa época do ano que são divulgados os listões das várias faculdades, o ano finalmente termina para os vestibulandos... com choro para alguns e festa para outros.
O vestibular se faz necessário em um país que gasta mais com grampeadores de mesa do que com educação, as vagas nas universidades públicas e gratuitas não são hoje suficiente para aguentar a demanda de pessoas que querem ter o direito de usufruir do status universitário. E entrar em uma universidade era difícil até o início da dessa década, tanto que sobravam vagas, as provas de vestibular eram mais complicadas que suruba de minhoca e em nada lembravam o teste psicotécnico para adentrar em algumas instituições de nível superior.
Prova de uma faculdada particular e de uma pública
Vestibular é que nem ser pego cagando, todo mundo já passou por isso. Para alguns a experiência foi leve e divertida, mas para outros traumática. É um ano de transição e muitas mudanças, de onde tiramos aprendizados valiosos (como nunca escolher cursos de licenciatura) e fazemos amizades tão profundas quanto efêmeras.
Vestibular é que nem ser pego cagando, todo mundo passou por isso: uns levaram na boa, outros não
Fiz meu primeiro vestibular no fim da década de 90, o último dividido por áreas, era uma conjuntura diferente da atual. Primeiramente existiam poucas faculdades particulares, somente CESUPA e UNAMA, e ofereciam os mesmos cursos que nas faculdades públicas, o que as fazia sempre segunda opção pra quem não conseguia ingresso na UEPA ou UFPA (e FCAP UFRA para os outsiders) ou para os filhos de pai rico mesmo.
Dentro dessa estrutura existiam as divisões por área: Nas Ciências Humanas, os burros, com exceção de quem iria fazer Direito (mal se sabe que lá estão os mais burros); nas Ciências Exatas, o mais burro da turma era mais inteligente que o mais safo das Humanas, sabiam tudo, menos se divertir ou falar com uma mulher; nas Ciências Biológicas, Todo mundo queria medicina, quem tinha medo mas queria se vestir de branco ia pra Fonoaudiologia e Odontologia, os mais medrosos ainda iam (adivinha pra onde) para as Ciências Humanas fazerem psicologia. Tinha ainda Letras e Artes, onde estavam os vidalokas que tentariam jornalismo ou os medrosos que temiam jornalismo e faziam letras.
Como pode ser visto, o medo era companheiro diário de quem tentava uma vaga em uma universidade pública, mais do que nunca o objetivo era passar no vestibular, não importando o curso.O jovem iniciava a vida vestibulanda tentando medicina, não conseguia, tentaria mais cinco vezes levando o farelo em todas, mudava pra Direito e se ferrava de novo, terminava sendo aprovado em Biblioteconomia, Serviço Social, ou até mesmo em História.
O ambiente em sala de aula era reflexo disso tudo. Os vestibulando de faculdades particulares não estavam nem aí, faziam da sala de aula espaço pra usar roupas exclusivas e badalar, os vestibulandos das universidades públicas tinham a condição física tensa na proporção da concorrência para o seu curso. O jovem que tentaria geografia era mais cabeça fria que a moça do Direito, sempre descabelada e com cara de que nunca dormia.
Um vestibulando pra um curso de licenciatura, uma vestibulanda pra faculdade particular e uma vestibulanda de medicina
Assim o ano passava e as turmas ficavam cada vez menores, era algo como uma guerra, onde apenas os mais preparados - ou espertos - conseguiam sobreviver até a última prova. Na última semana de aula o professor é Deus; a sala de aula, o templo; a apostila, a cartilha de oração e a internet e tv, o diabo. Chove conselhos de todos os lados. A tia solteirona diz pra fazer primeiro a redação e promete algum bem material que não vai cumprir caso o vestibulando passe. A mãe se preocupa e em entupir a filha de tudo quanto é patuá, coloca até foto contra olho gordo do orkut. O pai se preocupa em demonstrar despreocupação com o filho, porém é o mais preocupado de todos. Mas o pior de tudo é o irmão mais novo fazendo inveja de uma vida sem vestibular, se joga no sofá se divertindo mais que todo mundo com a mazela consaguínea.
Aliás o the final countdown do vestibular para as universidades públicas é particularmente traumático, os coleguinhas que passaram nas particulares desfilam novidades enquanto seus pais penhoram os rins pra pagar matrícula e mensalidade. Pra piorar mais as últimas provas acontecem no período chuvoso da capital ... e lá vai vestibulando arrependido, com suas orelhas tão fartas, com seu osso roido e com o rabo entre as patas por debaixo de chuva ouvir a mesma piada do professor pela 12648213654 vez e rir ... pra não chorar.
Enquanto o irmão mais novo se diverte de férias, o mais velho vai pra aula na chuva
O dia das provas é o mais engraçado de todos. Eu sempre fui meio sádico e entrava no recinto olhando os semblantes e os acessório para fazer prova. Geralmente percebe-se o quanto um vestibulando estudou pelo que ele coloca em cima da mesa na hora da prova: os vidalokas levam apenas uma caneta em condição física duvidosa e um dicionário com um vocabulário mais pobre que filme pornô, os CDFs levam caminhões da Bic e da Faber-Castell e o dicionário à venda nas melhores lojas do Rambo ramo, alguns levam imagens de santos, terços, crucifixos e mais parecem irem para um exorcismo do que para um "processo seletivo".
Mesa de uma vestibulanda estudiosa e caneta de um vidaloka
O dia do resultado provoca dores abdominais terríveis, nesse momento percebe-se a praticidade de um nome. A tortura da espera sempre é maior para o Zacarias do que para o Abel, nada é mais silencioso mentalmente do que os segundos que precedem a procura pelo curso no listão e nenhum "Taquepariu!" vai sair tão retumbante e mudo quanto o proferido após achar o nome entre os aprovados ... ou não. O vestibulando foi aprovado, acabou a tortura certo? não, está só começando.
As festas de aprovação no vestibular não fazem muito sentido. Primeiramente jogam tudo quanto é porcaria em cima do pobre coitado que foi aprovado: chapéus, sapatos, roupa velha quem tem?, café, ovo, colorau, violeta (não a flor), ácido sulfúrico, tem gente até encomendando porcaria pra jogar em quem passou.
-"PARABÉNS FILHÃO!"
- "Obrigado pai, mas o que é isso na sua mão?"
- "Bosta de camelo!"
- "Onde o senhor arrumou isso?"
- "Comprei na internet, custou R$780,00 a grama. Por isso não desvia muleque, deixa eu passar tudinho em ti!"
Pô, o cara estudou que nem um desgraçado, deixou de fazer um monte de coisa que gostava pra conseguir passar no vestibular e o que ele ganha? um monte de imundície atirada em sua direção. Enquanto os garotos ganham tapa na careca (os criados com leitinho com pera raspam a cabeça com máquina, os vestibulandos de raiz com barbeador, os vidaloka com caco de vidro) e as meninas ficam com o cabelo fedendo a ovo por duas semanas. Deviam fazer tudo isso com quem não passou!
As festas de aprovação se diferenciam. O resultado das 15987521321 faculdades particulares de Belém saem em surdina, tem gente que confunde até com homicídio, com barulhos de foguetes emulando tiros seguido de gritinhos histéricos da aprovada. Após isso se vê uma festa até certo ponto marcada pelo constrangimento, o pai tenta mostrar felicidade, mas os valores a serem pagos para garantir a vaga da filha estão estampados na testa, a mãe tenta festejar e não sujar a casa ao mesmo tempo e a moça sai no carro do ano do pai toda suja, solitária, sendo encarada por todos de uma maneira meio desconfiada, parece que ganhou bronze na Paraolímpiada.
Expressão de aprovação em Universidade particular e pública
As festas de aprovação nas universidades públicas são mais insanas, o pai sai pela cidade com a cara de "meu filho é foda", o jovem sai por aí abraçando quem não conhece, professores de cursinho que dão aula pra 7856235663655625364552 alunos fingem conhecer o sujeito só porque ele passou. Geralmente funciona da seguinte maneira: dá-se o parabéns e em seguida um olhar de aprovação e uma frase proporcional ao reconhecimento social do curso.
-"PASSEI, OBRIGADO POR TUDO PROFESSOR!"
-"Parabéns! eu sabia Osmar..."
- "Meu nome é Ubirajara!"
- "Parabéns Ubiraci, passou em quê?"
- "Desing de frutas de plástico com ênfase em pêras"
- "ahh sim! parabéns!"
Toda festa de vestibular contém elementos em comum: o pai - bancando tudo, a mãe - tentando manter a ordem no meio do caos, o irmão mais novo - querendo saber só de sacanagem, um amigo que não passou e não tá nem aí, o tio querendo dar conselhos profissionais sérios pro sobrinho na hora da festa e um cara que só vai pra beber (e geralmente não é só um).
Outra coisa interessante são as roupas das meninas nessas festas, geralmente escolhem um short bem muídinho ou apertadinho ou as duas coisas, junto com uma blusa branca de algum evento que já passou (por exemplo: "feira de pompoarismo 2008") que fica transparente em meio aos festejos ou um top mais curto que as pernas da mentira, o que quase sempre atrai o olhar de algum amigo manicão da família.
No dia seguinte à festa prevalece a vergonha alheia: o cara tava tão feliz que nem sentiu o cucuruto dolorido, as feridas no joelho e outras dores misteriosas reveladas em fotos, isso sem falar de outras cagadas como Beijar quem não devia ou dançar lambada com um professor afeminado de redação (=X).
Moças comemorando a aprovação no vestibular e a ressaca moral do outro dia
Enfim, a festa que marca a aprovação no vestibular é geralmente um prelúdio de como será a vida dentro da faculdade: uma cagada. Percebe-se que é muito mais fácil entrar do que sair da universidade, a vantagem é a meia-passagem e a meia-entrada, a desvantagem é a falta de dinheiro para usá-los. E para um jovem por volta dos seus 18 anos, estar em uma faculdade é um status considerável ... isso até ele conhecer o pagode/forró/sertanejo universitários.
E você aí achando bacana ser universitário, francamente heim...
E vocês alguma vergonha passada em festa de vestibular? jogaram alguma porcaria que até hoje não saiu?
Esse post foi sugestão da @karimme, agradeçam ou esculhambem com ela pelo escrito aqui =D
Eu agradeço



















8 pessoas enganadas:
- Em pensar que há exatos 5 anos eu levei o farelo na UFPA e chorei litros.
- Mas há 4 anos tive uma festa de vestibular, não foi uma federal, mas já estou quase me livrando, amém.
- Quebraram o ovo na minha bunda, sério, sem piadinhas de mau gosto, mas como sempre fui avantajada nessa região, as pessoas tiraram até no dia da minha aprovação para fazerem de mim uma piada infâme. Puxavam o meu short e quebravam o ovo na minha bunda, ridículos, fiquei com raiva agora, não quero mais falar sobre isso.
- A descrição da roupa da caloura ficou perfeita, e a parte da suruba de minhoca foi mais um dos teus despropósitos HUAhuahUAHuahUAHuahu Idiotinha.
Sim, assumo que esta 'ideota' tbm veio da minha cabeça de bagre. Pensei em um post, mas como não sou boa em humor deixei a palhaçada pra ti... hehehe Realmente, essas cagadas são mais comuns que se imagina: passei no vestibular em 2007, teve listão e o caralho, mas como tava ressacada da noite anterior nem acordei a tempo de ouvir; só lembro do meu pai chegando com o jornal e dizendo espantado: "ÉGUA! Tu passaste.. oO" Foi um choque pra alguém q só tinha vagabundado o ano todo e aparecia viajante no cursinho, mas enfim. =x
Ovo, trigo, colorau, fazem parte do processo (teve um FDP que ainda tentou me jogar cocô de galinha, sem sucesso "Deveu, otário"). E gente ligando. E cerveja. E o clássico chacina das trevas. O amigo do vizinho do primo aparecendo pra beber. A música do Pinduca rolando 393 vezes seguidas, acompanhada de marchinhas de carnaval. Pessoas bêbadas virando melhores amigas. Cantando marchinhas de carnaval e fazendo merda... Resumindo: BAGAÇA.
No fim do dia, fomos lavar o pátio, afinal a casa ficou mais imunda que os canais da doca. E a caloura, meio breada ainda cai de bunda no pátio cheio de sabão...
Fiquei toda dolorida, mas o importante é que eu passei! \o/
Saudosos momentos... hahahaha xD
P.S.: Parabéns pelo blog, Loro. Precisando de mais besteiras, "estamos aqui pra isso".
=***
Rapaz, passaram máquina zero. Até aí tudo bem. Mas depois vieram com os prestobarbas, o problema é que todos estavam bêbados. Eu não tava sentido nada por conta do creme de barbear mentolado... até eu ver o sangue escorrendo.
No segundo vestibular, só andei com a minha mãe até uma igreja aí em que ela fez uma promessa e pronto. Ninguém me sujou ou cortou minhas madeixas. hahahah.
Não sei qual foi o pior dos dois.
Abraço.
Adorei: "as Ciências Exatas, o mais burro da turma era mais inteligente que o mais safo das Humanas" hehehe Na minha época era assim tb :-) Parabéns pelo post. Identificação total!
Quando passei na UFPA me passaram banha de galinha. Sem mais.
eu nunca tive e nunca fui pra uma festa de vestibular descente!!!
So esqueceste de dizer que tem vestibulanda que leva uma vidaloka no cursinho e em casa e a princesinha do papai!
Ai passa no curso de Ed. física os amigos do cursinho chegam o pai, tios, primos... são mortos de ciumentos de super protetores que ficam vendo com muita malícia os abraços e beijos dos amigos e com os nervos a flor da pele, querem matar os pobres amigos!
OBS: tirei tudo isso da minha imaginação.
;p
é Design, não Desing professor
Ass: Designer
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