Bem meus caros amigos, voltamos novamente como o blog tão útil quanto um barco à motor quando insistimos em usar os remos. A alegria dos gazeteiros de trabalho e das recepcionistas de olhar sedutor foi restabelecido.
Bem, estamos no fim de janeiro, momento dos mais desagradáveis na já desagradável vida de professor. Não falo do fim do mês e da piada em forma de números chamada de contra-cheque. Estou falando da volta às aulas, período de encontrar novamente os queridos alunos do ano anterior, conhecer os novatos e sentir aquela velha pontada no peito prenunciando um infarto.
Uma das coisas que eu mais gosto de ver nos primeiros dias de aula é a empolgação dos alunos com volta da rotina de aulas. Pudera, já viram todos os episódios de padrinhos mágicos e zeraram todos os jogos de videogame. Queriam voltar pra escola, pra bagunça, pros colegas, pro recreio, pro subconsciente suicida do professor. Ahh a volta às aulas...
A empolgação pela volta à sala de aula é tão grande quanto efêmera, bastam cinco minutos de aula pra ela sumir mais rápido que celular em micareta e os alunos ficarem encarando o professor com cara de porre.
O verdadeiro sentimento de volta às aulas
A maior empolgação dos alunos consiste em escrever. Nos primeiros dias de aula os jovens discentes querem anotar tudo, qualquer pequeno risco feito pelo professor no quadro é logo reproduzido pelos alunos nos cadernos novos. Essa empolgação é explicada pela novidade dos materiais escolares, o caderno estampando a cara de um adolescente com cabelo engraçado, as canetas com cores que eu nem sabia que existiam, as lapiseiras que parecem borracha mas tem função de caneta, as borrachas que tem aroma de algo sintético mas cheiroso, um mundo de novidades a serem exploradas no primeiro dia de aula. Logo, logo, o protagonista na capa do caderno vai ter bigodes e verrugas desenhados e as canetas se perderão no esquecimento de um fim de aula.
Olhando essa parafernália de material escolar, eu não consigo deixar de fazer um paralelo com minha época de estudante - entre os anos 80 e 90 - e em como as coisas eram diferentes naquele período.
Primeiramente o Brasil vivia uma recessão braba, ninguém morria de fome, mas também o dinheiro não permitia extravagâncias, além disso não tinha a heroína-mor da caboquice paraense, a Geni dos importados, a Capitu da Balança Comercial: a China. Importados praticamente não existiam em Belém até a primeira metade da década de 1990. Por isso, nada de canetas com funções inúteis e cores chamativas e segurança duvidosa. Era o básico mesmo.
A qualidade do meu material escolar piorava ainda mais por ter dois irmãos em idade escolar. Um, uma série avançado com relação a mim e o outro três anos mais novo, era um sufoco. Estudávamos em uma escola que a quantidade de reclamações da minha mãe na hora de pagar a mensalidade me fazia presumir ser cara. Por isso sobrava pouco dinheiro pra comprar aquele caderno com o cara maneiro surfando, ou a lapiseira que escrevia e apagava o mesmo tempo, mas éramos crianças (naquela época jovens na sexta série ainda eram crianças) e cumpriamos a nossa função - de encher o saco da mãe pra comprar o melhor material escolar - com louvor.
A dona morenadadoca sabia os filhos que tinha e justamente por isso partia para o comércio ("lá em baixo" como ela dizia), sem fazer alarde. Vestia a melhor roupa colorida dos anos 80/90, colocava os vales transportes na bolsa e - vendo a empolgação dos filhos de férias pra sair com ela - dizia que iria pagar contas. Mulher esperta a minha mãe ... sabia que os filhos odeiam sair com pra pagar contas.Quando ela voltava, as sacolas denunciavam: Ela comprou o material escolar sem a nossa participação. O desânimo tomava conta das nossas feições conforme ela tirava da sacola - tão tosca que não tinha nem o nome da papelaria - o material que usaríamos o ano inteiro. Eu mirava os meus irmãos e eles me olhavam com aquele olhar de pena de si e do outro, igual a cara do Coiote antes de cair do abismo e víamos a expressão da nossa mãe tentando nos animar dizendo quase gestualmente "foi o que deu pra comprar".
O caderno dificilmente era de capa dura e as estampas até hoje povoam o lado loser do meu imaginário, eram carros esquisitos...soturnos, sabem aquele carro de estuprador? poisé, quase um Opala da "próxima vítima". Quando o desenho da capa continha animais, eles tinham uma feição triste, mas querendo te alegrar, pareciam doentes, infelizes, talvez refletissem o sentimento dos seus ilustradores. As folhas do caderno pareciam papel de embrulhar pão com linhas feitas com réguas e caneta de garçom, todo cuidado do mundo era necessário na hora de escrever nelas, a tinta da caneta passava para o outro lado e se fossemos tentar apagar, abria-se um buraco no meio da folha.
Assim eram as capas dos meus cadernos
A caneta que eu usava chamava-se kilométrica (acho que muitos de vocês se lembram dela), na hora da primeira linha desenhada a tinta toda da caneta saía de uma vez só, a mão ficava toda suja de tinta. Se a caneta fosse vermelha seríamos facilmente acusados de algum assassinato. Dava vontade de jogar a caneta a uns três quilômetros de distância ... talvez daí venha o nome Kilométrica.
Em uma época em que lapiseiras eram carissímas e a grafite mais ainda, o lápis era solução, os meus sempre tinham cara de gato vira-lata e a ponta deles se quebrava como coração de marido de atriz pornô, era até divertido entrar na roda de fofoca dos alunos à beira da lixeira apontando lápis, o ruim era quando ele se esfarelava e nada da ponta aparecer. Os lápis geralmente fazia binômio com a borracha - a parte mais insossa do material escolar - só me lembro daquelas borrachas com um sujeito de masculinidade duvidosa todo se querendo, sempre que eu encarava a borracha eu via aquele sujeito, ele parecia estar com o dedo na boca querendo me seduzir, horrível! Passei um bom tempo sem usar borracha.
A caneta Kilométrica (primeira de baixo pra cima) e a borracha do cara todo siquerendo
Outra coisa que me enfurecia em meio a incopreensão econômica galassequística de um pré-adolescente era o fato de eu reutilizar os livros do meu irmão mais velho. Todos os meus coleguinhas começavam o ano com o livro limpinho, estralando de novo, eu já tava com o livro todo borrado, povoado de imoralidades e pichações de todo adolescente, isso sem falar de outro péssimo vício dessa época da vida: fazer bigodes nas figuras. Eu pegava um livro cheio de personagens de bigode. Parecia uma boate gay! Além disso eu não podia mais desenhar um bigodinho. NENHUM! porque todas as figuras já haviam sido bigodeadas pelo meu irmão. O que também acabou por atrapalhar meu imaginário histórico, eu só fui saber que a princesa Isabel não tinha bigodes na universidade. Talvez por isso eu tenha optado pela faculdade de história. Pra saber quem tinha ou não bigodes.Eu pelo menos pensava nas vantagens de herdar um livro do meu irmão: as respostas estavam todas prontas, eu não precisaria fazer exercícios, o chinêsdadoca tinha feito tudo no ano anterior. PURA ILUSÃO, as respostas estavam todas erradas. Agora eu não teria só o trabalho de responder ao exercício, teria dois: APAGAR AS RESPOSTAS DO BURRÃO e responder novamente.
Quando o ano chegava ao meio, o urso na capa já tinha caído e o caderno parecia um livro de receitas de uma bruxa desorganizada, auxiliadas pela minha letra horrível, as páginas se pareciam com as paredes da casa do Charles Manson, os professores odiavam corrigir meu caderno e sempre me olhavam com cara de "seu gordo fi*** d* p**a!" quando tinham de fazê-lo.
O tempo passou e hoje eu me vejo do outro lado e confesso que, hoje como professor, gosto de comprar material escolar, é como exorcizar os tempos difíceis de kilométricas e cadernos com animais doentes na capa; fico lembrando como a escola era diferente naquele período nem tão distante, eu me divertia com qualquer porcaria, não precisava de cadernos de cinquenta reais ou canetas de quinze.
E mesmo contando esses episódios tragicômicos eu admiro a dona morenadadoca e como ela conseguiu me estimular pra estudar com um material escolar tão escroto sem atrativos. Talvez pelas surras ameaçadas ou pela dificuldade sentidas em ver aquela mulher quarentona pegar ônibus toda torta com um saco enorme cheio de cadernos, eu via o quanto era importante estudar. O resultado taí: me formei e hoje tenho um blog.
hahahahahahah ainda bem que ela não lê isso!







21 pessoas enganadas:
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk......Muito boa essa resenha véio. Tu é professor de Língua Portuguesa....é pq tu tem jeito p/ coisa....as meninias escrevem bem. Parabéns.
"O resultado taí: me formei e hoje tenho um blog." Feliz é a dona morenadadoca! Ótimo post :-D
Quem é da época, não tem como não se identificar com o texto e as dificuldades vividas. Tragicômico é uma ótima definição. Parabéns!
Não gostei desse post, achei o texto forçado demais e pela primeira vez não me arrancou nenhum sorriso, só um cantinho de boca com o comentário e a foto da borracha. E? É, eu sei...
dona morenadadoca #miurinei =D
Aposto que o chinesdadoca, mesmo burrão, está melhor do que tu. Pelo menos na minha família foi assim: os mais vagabundos se deram bem na vida!
A minha mãe costumava encapar os livros com o papel do ovo de páscoa do ano anterior que ela guardava. Exemplo de preocupação com o meio ambiente :)
A parte do chines da doca é muito boa, a melhor.
Todos os pais enganavam os filhos na hora de comprar material. Minha mãe sempre foi marota nesse quesito. Até no material escolar que a escola pedia, ela me fazia vergonha, mandava incompleto, quase nada e quando as professoras me cobravam, ela mandava eu dizer: "semana que vem ela vai mandar", enfim, anos e anos enrolando os colégios que eu estudei.
P.s.: Embrulhar livros com papel de ovo de páscoa foi foda HAHAHAHAAHAHAHHAAHHA
hahaha...muito bom
Fantástico! simplesmente fantástico. #RiAlto rsrsrsrs.
Ah,bem engraçado o novo post!O q é o cara da borracha se querendo e tentando e seduzir? #riliros
Oura coisa bacana são so apelidos que dispensas pra ua família: #donamorenadadoca, #chinesdadoca...Eles sabem desses apelidos?
tu tem sorte caboco, pior era escrever num caderno veleiro (com o hino nacional na contra-capa - se é que se pode dizer que havia uma contra-capa) na década de 70. isso sem contar com a merendeira de plático, vazada pra deixar a parte superior (que também era o copo) da garrafinha de kisuco de fora. completava a merenda um generoso pedaço de pão massa grossa com manteiga.
ok, tô vivo!
mEU, ME IDENTIFIQUEI COM VARIAS COISAS Q VC DISSE.MEUS CADERNOS TBM ERAM SUJOS, MORAVA EM UMA CIDADE Q TINHA MUITA POEIRA E SUJAVAM BASTANTE, ALEM DE IR A PE PRA ESCOLA COM UMA SANDALIA DE PLASTICO, O PE CHEGAVA LA PARECENDO Q TINHA ANDANDO DESCALÇA,TRANPIRAVAEGRUDAVA O PÓ, UM HORRORRR!
AH ME LEMBRO DASCANETAS QUILOMÉTRICAS(ATE HJ N SEI PQ ESSE NOME) E DA BORRACHA..KKK
DEUZENI
A MINHA MAE JA ENCAPOU COM PAPEL DE PRESENTE USADO E QDO TINHA PAPEL DE OVO DE PASCOA ERA CHIQUE,PQ ERA BRILHANTE...KKK
Divino post! Diversão com gosto de nostalgia.
A borracha da Mercur com o cara sinistro siquerendo eu tive! Alguém mais teve a lapiseira Poly? Aquela que tinha a ponta beeeeem grossa, e um apontador no botão de empurrar?
E mochila jeans? E carrinho pra puxar a mochila?
Nunca usei material do meu irmão mais velho porque são 6 anos de diferença, os livros venciam.
Minha mãe teve o trauma de usar aquelas borrachas de colocar na ponta do lápis, por isso se esforçou pra que eu tivesse um materialzinho digno ;)
E sim, estudar também sempre foi prioridade por aqui!
kkkkkk.
Muito bom.
Eu comprava dois cadernos pequenos (daqueles de 200 folhas) comprava uma mola grande e juntava tudo. Daí ficava com um caderno pequeno mas com 400 folhas.
Égua! caneta kilométrica...kkkk, eu gostava delas, mas sempre acabavam no meio do caminho do "kilometro".
Muito bom esse post, mesmo mesmo.
beijos
#atualiza
KKKK! Tu sempre te superas! As canetas kilométricas foram geniais! Como também sou professor, as oferecei aos meus alunos como prêmio, juntando-se ao binômio Kolene-Neutrox! Meu material era legalzinho, mas eu tb usei, em momentos difíceis por aqui, aqueles cadernos horríveis de páginas que rasgavam. Caderno da Tilibra era um luxo!!! eheheh!!! Parabéns, mais uma vez!
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